Miguel Anxo Bastos Boubeta
A alquimia financeira de Sánchez
Há alguns anos, o presidente do Banco Central britânico, Mervyn King, escreveu um livro intitulado «O Fim da Alquimia», propondo reformas no sistema monetário para evitar continuar a recorrer aos velhos truques de magia que os banqueiros centrais usavam para transformar em ouro tudo aquilo em que tocavam. Os antigos alquimistas, pelo menos, tentavam transformar um metal noutro de maior valor, mas os modernos, que em vez de se esconderem em laboratórios sinistros ocupam escritórios confortáveis nos centros financeiros do mundo, e nem sequer precisam de usar metais ou feitiços; simplesmente criam dinheiro do nada, sem qualquer custo.
O governo de Sánchez também recorre à magia e à alquimia no domínio das finanças públicas, e revela-se um digno aprendiz de Fulcanelli, Cagliostro ou outros magos dos velhos tempos. Transmuta em dinheiro, não só o nada, mas até mesmo a dívida. Já nos tinham mostrado a sua capacidade ao transformar fundos europeus destinados à transformação económica de Espanha em pagamentos de pensões, com grande escândalo por parte dos políticos alemães, mas agora superam-se a si próprios com a criação de um fundo de investimento, «Espanha Crece», que pode mobilizar até 120 mil milhões de euros, a partir de fundos europeus não gastos, 2,8 mil milhões, e cerca de 10 mil milhões em créditos europeus também não utilizados, mas que têm de ser devolvidos em cómodos prazos.
Os economistas do governo transformam estes fundos nesta enorme quantia, transferindo-os para o Instituto de Crédito Oficial, o famoso ICO, que é uma espécie de banco público, ainda que não tenha essa designação, e, com o seu aval, emitem títulos de dívida desta entidade. Estes títulos são vendidos, nos mercados de capitais, principalmente de países emergentes como o Brasil ou a Turquia, com o aval da notação de solvência do Reino de Espanha. Como é sabido, a dívida pública nunca é paga, pois, ao vencer o título, este costuma ser trocado por um novo, bastando pagar pontualmente os juros, algo que pode ser feito com a pequena quantia de fundos aportada ao ICO. Assim, com um modesto desembolso para cobrir estes gastos, é possível obter de forma quase imediata somas de dinheiro muito superiores, até cinco vezes o desembolso inicial, de acordo com as previsões feitas aquando da apresentação deste fundo. Além disso, a dívida emitida pelo ICO não conta como dívida do Reino de Espanha para efeitos de contabilidade nacional, pelo que nem sequer tem impacto na apresentação das contas aos organismos internacionais.A ocultação da dívida pública, desta e de muitas outras formas, também faz parte dos truques de todo o bom mágico. O Ministério da Economia espanhol é ainda melhor neste aspeto do que o grande David Copperfield, que fez desaparecer a Estátua da Liberdade num dos seus famosos truques.
Se a isto acrescentarmos que os empréstimos do ICO implicam que o prestatario tenha de contribuir com um euro por cada euro que a instituição pública contribua, já temos os 120 mil milhões que o governo exibe na sua propaganda. Tantos truques para dizer simplesmente que vai obter este dinheiro endividando-se. O que não está tão claro é em que é que esse dinheiro vai ser gasto, uma vez que já demonstraram a sua incapacidade de transformar os recursos europeus em melhorias na produtividade espanhola. Para além de toda a retórica da economia verde e circular, ou da melhoria da qualificação profissional dos trabalhadores, não fica claro quais serão os projetos a financiar nem as razões pelas quais irão transformar a estrutura económica. Acabarão por ser usados novamente para pagar pensões.
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