Manuel Fernández Ordóñez
El CO2 como coartada para encarecer la luz
Há alguns dias completaram-se cinquenta anos do falecimento de Ramón Otero Pedrayo, sendo este um bom momento para fazer um balanço do seu legado, não só cultural, mas também político. Grande parte das merecidas homenagens que lhe são dedicadas nestes dias centra-se no seu trabalho como geógrafo e catedrático universitário, como escritor de ficção, como teórico cultural (o seu Ensaio histórico sobre a cultura galega continua a ser uma grande referência), ou como o grande orador que foi. Também tem sido destacada a sua atuação como deputado constituinte na II República ou a sua influência decisiva, igualmente como deputado, na elaboração do Estatuto galego de 1936. Pela minha profissão, gostaria de abordar a sua obra como teórico político do galleguismo republicano, que já foi analisada em pormenor, entre outros, pelos historiadores ourensanos Xosé Ramón Quintana Garrido e o infelizmente falecido Marcos Valcárcel, em várias monografias e ensaios académicos, e, claro, reivindicar o seu legado para os nossos tempos conturbados.
Otero era claramente um nacionalista de direita e, como tal, atuou politicamente na época da República, mas também no domínio das ideas deixou um legado. Ainda que o papel dos teóricos políticos do nacionalismo seja hoje associado a Vicente Risco, Daniel Castelao ou aos irmãos Ramón e Antón Vilar Ponte, o professor Otero também influenciou a formação do ideário do nacionalismo galego da época. No seu caso este era de orientação católica e fortemente influenciado pelo pensamento conservador europeu da sua época, que conhecia muito bem. Infelizmente, parece que o seu legado intelectual, tal como o dos restantes nacionalistas conservadores -que foram os responsáveis pela elaboração do melhor da doutrina nacionalista da época- defendia a cultura católica e cristã europeia como o ápice da civilização mundial, e sentia-se muito orgulhoso de que a Galiza fizesse parte de pleno direito dessa civilização. A propósito, um livro recente de Joseph Henrich, traduzido para o castelhano como “Las personas más raras del mundo”, parece dar razão às intuições de Don Ramón, identificando a cultura ocidental com muitos aspetos da religião cristã católica. Além disso, o ilustre orensano associava também a cultura e a civilização ocidentais à forma de atuação política dos pequenos Estados europeus, e não tanto à das grandes potências da sua época. Não é de admirar que ele apoiasse a luta pela independência da Irlanda católica num artigo na revista Nós. Não há dúvida de que hoje estaria mais do que satisfeito, dada a evolução do Tigre Celta.
Otero revela-se também um crítico político da modernidade. Hoje, sem dúvida, manifestaria a sua oposição ao pós-modernismo woke dominante nos medios académicos e na política. Para ele, tal como para Risco, as ideias de esquerda que imperavam na sua época, e também na nossa, não passam de importações de modas vindas de Madrid. Otero foi um catonista, ou seja, uma pessoa contrária aos costumes modernos, como se pode ver no seu célebre ensaio em que defende, com fina ironia, o tradicional café de pota galego fronte às modas estrangeiras do café expresso de máquina, trazidas da meseta.
É pena que muitas das suas ideas, tanto as irónicas como as sérias, tenham desaparecido da cultura política galega, especialmente da nacionalista, que não duvida em importar também ideas de fora da Galiza, esquecendo a sabedoria do velho mestre galego.
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