O rearmamento da Europa: contra quem?

Publicado: 09 mar 2025 - 09:25

Após o aparente abandono dos europeus a si próprios, derivado da falta de consideração que a administração Trump demonstra para com os seus líderes políticos, negando-lhes mesmo a participação nas mesas de negociações sobre o conflito ucraniano, a presidenta da Comissão Europea apela ao rearmamento dos países europeus. Desta forma, estes poderiam tornar-se autónomos em matéria de defesa, suponho que sem depender dos Estados Unidos, e assim melhorar a sua quase nula capacidade de influência na cena internacional. Resta saber como é que esse rearmamento pode ser conseguido, quer por cada estado por si proprio, quer através de um exército europeu unificado. Resta também discutir como poderá ser financiado, quer através de medios inflacionistas, como muitos líderes parecem preferir, ou seja, emitindo dívida mutualizada através de euro-obrigações, quer cobrindo os custos com recursos fiscais normais, recortando noutras rubricas, o que é menos popular politicamente mas mais sano dende o ponto de vista económico.

Suponho que antes de entrar no debate sobre a pertinência ou não de um tal rearmamento, penso que seria necessário colocar uma questão prévia: qual seria o poderoso inimigo existencial dos europeus que justificaria um tal rearmamento? . E isso ainda não é claro. Em primeiro lugar, poder-se-ia apontar a Rússia de Putin como esse inimigo e, consequentemente, a aquisição de armas e o recrutamento de tropas deveriam ter como objetivo neutralizar essa ameaça. Isto coloca um problema grave: no caso de um pacto para acabar com a guerra entre os Estados Unidos e a Rússia e partilhar entre eles os recursos minerais e energéticos ucranianos, o grande inimigo eslavo tornar-se-á imediatamente um parceiro da própria NATO. Ou seja, a Europa, enquanto membro da organização atlântica, estaria a acumular armamento contra um parceiro preferencial do principal membro da NATO, o que, em princípio, não é lógico. Os americanos, que têm interesse na estabilidade da Ucrânia, seriam os primeiros garantes da paz no país e forneceriam seguramente os meios materiais e humanos para que isso acontecesse. Por outro lado, qualquer hipotética agressão russa a outro país europeu seria dificultada pela redução das fronteiras diretas com ele e teria de ser feita bem utilizando a Bielorrússia, bem atacando directamente os países bálticos ou a fronteira finlandesa, seja utilizando algum dos seus enclaves na Transnístria ou em Kaliningrado, o que seria, sem dúvida, muito arriscado. É quase certo que precisaria da autorização dos EUA para o fazer. Não faria sentido rearmarmo-nos contra o nosso novo parceiro; de facto, Putin voltará muito provavelmente a passear pelos fóruns internacionais e a ser calorosamente recebido pelos líderes mundiais como um velho amigo.

Outra opção é que o inimigo potencial sejam os próprios americanos, num cenário como os descritos por Orwell em 1984, com uma mudança total de alianças. Mas aí nós, europeus, teríamos um problema sério, pois os nossos sistemas de armas são dependentes da logística e o desenho americanos, para não falar de toda a rede de bases militares estabelecidas no nosso território. Mesmo com todas diferenças que possamos ter com eles, esta não parece pelo momento ser uma hipótese muito realista em termos de definição de objectivos de defesa. A outra grande ameaça potencial seria a China, mas, para além de estar geograficamente distante, parece ser agora objeto da boa vontade da diplomacia europea. Creo, portanto, que todas estas proclamações de rearmamento não dará em nada, pelo menos enquanto não for claro quem é o inimigo a combater, e, neste momento, está longe de ser claro quem é este.

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