Aprendizes de Bruxo

Publicado: 20 abr 2025 - 01:20

Há mais de quarenta anos, o falecido politólogo William Riker elaborou o conceito de herestética num capítulo de um livro coletivo, e que foi também desenvolvido em Espanha, alguns anos mais tarde, pelo politólogo catalão Josep Colomer num livro com o sugestivo título El arte de la manipulación política. Desde então, esta ideia ganhou vida própria entre os académicos e os especialistas em estratégia política, mas ainda não conseguiu sair dos gabinetes obscuros dos cientistas políticos, conservando-se quase como um equivalente moderno dos antigos arcana imperii, ou segredos do funcionamento do Estado. A disciplina da herestética tem duas vertentes principais, a primeira é a manipulação do sistema político a favor do governante, desde o desenho do sistema eleitoral, ou seja, a fórmula a utilizar para a distribuição dos escanhos e o dimensionamento das circuncrições eleitorais, bem a modificação do censo (como querem fazer agora com a modificação da idade de voto a 16 anos ou a incorporação selectiva de emigrantes e imigrantes no corpo eleitoral).

A segunda é ainda mais subtil e complicada, e consiste em alterar a capacidade de decisão entre forças políticas, o que significa, em termos mais simples, que o ator político, normalmente o que está no governo porque normalmente tem mais meios para o fazer, pode decidir como e com quem tem de se confrontar na batalha eleitoral. É bom lembrar que uma parte muito importante do eleitorado vota negativamente, ou seja, contra alguém, e não positivamente, ou seja, porque está entusiasmado com um dos políticos concorrentes. A partir daqui, o objetivo é fazer com que o voto de rejeição acabe por cair nas redes do manipulador. Trata-se de introduzir ou fomentar o medo no eleitor, de modo a que este acabe por votar no mal menor. É utilizado sobretudo em eleições presidenciais como as americanas ou francesas, onde é mais fácil de aplicar por se tratar de eleições a dois. O caso de Macron que escolhe Marine Le Pen como seu inimigo é um bom exemplo, porque perante a ameaça da extrema-direita, todas as forças “republicanas”, à direita ou à esquerda, acabarão por o apoiar. Mas os aprendizes de feiticeiro nem sempre acertam. O governo socialista francês promoveu a candidatura de Jean Marie Le Pen para dividir o eleitorado de direita, com o resultado de que foram os socialistas que ficaram de fora da carreira eleitoral. Hillary Clinton e a sua equipa inflacionaram as expectativas de Trump em 2016, talvez pensando que, numa competição contra ele, ganharia claramente, com o resultado já conhecido. Em Espanha, o governo de Rajoy incentivou as expectativas do Podemos através de uma presença incessante nos meios de comunicação, talvez com a intenção de assustar o eleitorado, com a consequência de resultados espectaculares para os do Pablo Iglesias que poderiam ter-lhe valido por pouco a presidência do governo. Nas últimas eleições legislativas, o medo a entrada do Vox no governo foi utilizado, com relativo éxito, para mobilizar o eleitorado de esquerda e nacionalista mais indeciso. Como esta estratégia não lhes trouxe maus resultados, parece que a querem continuar, desta vez utilizando o CIS de Teazanos para marcar tendências que evidenciariam uma fortíssima subida do VOX. Não é que essa subida não seja credível, o que é inacreditável são as mudanças nos grupos de idade que ocorriram num só mês, se observarmos os dados desagregados. Parece que, mais uma vez, querem jogar com o eleitorado, mas, tal como os aprendizes de bruxo, devem ter cuidado, para que desta vez não sejam eles mesmos os principais perdedores, por querer jogar cum fogo que que não são capazes de controlar.

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